Impressões sobre a Acrobata #3

10404456_838808492831154_5604059209594395615_nA.cro.ba.ci.a sf. 1. Arte, profissão, exercício ou exibição de acrobata. 2. Movimento, ato ou procedimento que revela destreza, habilidade ou astúcia. 3. Manobra difícil ou espetacular realizada por aeronaves, motos e automóveis.

A.cro.ba.ta 1. Funâmbulo. 2. Malabarista. 3 Ginasta. 4. Aviador que faz acrobacias.

Faz sentido o que se imprimiu no dicionário sobre os possíveis significados da palavra acrobata. Mas o dicionário não abarca a complexidade do fazer literário que se desvia dos cânones. Pois, neste “tempo aquoso” em que vivemos, escrever e publicar fora do mercado hegemônico e estabelecido consiste em realizar operações acrobáticas. Em borrar fronteiras. É isso que fazem os editores da Acrobata. Nesse fazer, promovem encontros, deslocamentos e desequilíbrios.

A Acrobata é uma produção noturna que acolhe as indecências de um cinema nacional renegado e relegado ao olvido. Quem já ouviu falar de filmes como Império das Taras ou Massagem? Quem já assistiu?

Produção de ousadia, astúcia, perdição.

Os editores da Acrobata dominam saberes circenses. Lona furada, chuva, sol = motivo para risos e alegria de quem sabe ser criança. Eles sabem usar a ocasião no momento preciso. Precioso. Desfazem fronteiras cristalizadas. Realizam conexões improváveis. Piruetas.

Piauí & Portugal & São Paulo & Santa Catarina & Pernambuco & Maranhão & Amazonas & Minas Gerais & Rio de Janeiro & Bahia.

Entre um texto e outro desenham percursos de corda bamba. Balanços. Mapas impossíveis entre cidades invisíveis. Tempero de impertinências no feijão com arroz de todo dia. Nas páginas escritas e desenhadas, insinuam-se loucuras, sonhos, desequilíbrios, febres, delírios. Fantasmagorias, sonho desenhado pelo artista Júlio Vieira.

Desenhar, escrever e publicar é uma operação de demarcação. Impressão (print), marca, rastro, signo. Transmutação do que se pensa/deseja em ser palpável. A Acrobata é um Objeto visível que se oferece aos sentidos de quem lê. Exige mão e olho. Quando leio, olho, pego, decifro, risco, marco. Significo. No meio das páginas, desordem. Há que ser contorcionista e ler plantando bananeira. Há que se virar na desordem da forma. Vire a publicação ou vire-se. Bote seu mundo de cabeça para baixo. Convite.

A poesia se faz presente. Bailado entre palavra e silêncio. Ritmo denso, às vezes, tenso. Maria do Sameiro Barroso diz o fogo, o lume, o corpo, o céu das horas turbulentas. Acena-nos do Além Tejo. Micheliny Veruschk (PE) registra descompassos entre ossos e corações. Coisas que latejam e se deslocam. Promessas cintilantes. Dyl Pires (MA) inventaria repetições. Entre o cais e o “museu das coisas que se disse ao longo da vida inteira” há mais que “silêncios partilhados”. Torquato Neto (PI), o poeta, leva-nos à sua experiência poética. E sua poesia alimenta-nos de esperança. Enche-nos de coragem. “Há uma porta, Rosinha. Está trancada. Mas abre.” E procuramos a chave nas palavras escritas por Thiago E (PI). Susanna Busato (SP) tece fraturas, dobras, desejos, labirintos. Não se veste de naufrágios. Despe-se. Afonso Henriques Neto (MG/RJ) desembrulha assombros, vertigens, verbos, espasmos, delírios, flutuações, dores. E nos sentimos nus e desenraizados “às margens do primeiro bosque”. Nydia Bonetti (SP) leva-nos “à beira do abismo” com seus versos de olhos verdes e revoltos. Desejo de sol e chuva. Simultâneos e contrários.

O cinema e suas imagens móveis. “Labirintos de espelhos”. Topografia onírica. Os desequilíbrios cinematográficos da Acrobata 3 emergem nos escritos de Ricardo Weschenfelder e Pedro de Souza (SC). É a mística da trilogia que nos desconcerta. O desejo demasiado humano de completude que esbarra na linguagem que não se completa, que tropeça nas falhas da memória. Nos corredores de espelhos, múltiplas imagens. Nada se pode controlar.

Para lá das trilogias há mais cinema. Pornô e chanchadas. Taras verde-amarelas. Nesse campo, José Adalto Cardoso (SP) narra-se diante das perguntas de Aristides Oliveira (PI) e Rafael Spaca (SP). Inconvenientes por ofício, perguntam sobre o que passou, mas Cardoso inventa-se quando conta. Mostra-se fragmentado. Não renega os filmes pornográficos que produziu, mas prefere não incluí-los no currículo. Exige contar e escrever sua própria história, focado nas preferências. Fala de arte, diversão, cultura, pornografia, erotismo, comércio como coisas que não se separam. Entre arte e dinheiro, diretores e produtores cada um é “feliz à sua moda”.

O cinema rende conexões. Animações e festivais. Roy Loui Di Paul (SP), sem pudores, escreve como pensa pornografia. Desde que nasceu, no final dos anos 1990, a Xplastic vem cultivando a arte de satisfazer vontades. Uma delas é atravessada pelo desejo de “conectar o submundo”. Pornografia e música.

No campo do fazer literário, Demetrios Galvão (PI) e Haroldo Ceravolo Sereza (SP) escrevem sobre práticas desviacionistas. Editoras independentes e a bibliodiversidade são o foco do debate. Falam de projetos, riscos, novidades, e formas diversas de colocar os livros em circulação. Produções ambulantes. Domínio do processo do começo ao fim. Táticas do desvio.

E no meio da leitura, estilhaços de silêncio. Zumbidos da cidade que sobe, sobe. E o poema “lembrança do tempo que não houve” exigindo voz alta e entonação correta. Vontade de saber de cor e salteado poemas do Torquato. Vontade de recitais. Pausa para o gole de café. Olho pela janela e vejo minha cidade recortada, montada e musicada. Cristalizada. Saudade cristalina. Sabor cajuína. Trocadilhos poéticos desgastados, mas cheios de significados nos fotogramas de Renata Flávia (PI).

Confusão de desejos. Felicidade de quem resolve comer como os ricos. Comer sem espinhas, sem engasgos. Registro de um cheiro na memória pode ser felicidade, no hoje de Thiago Roney (AM). Com leveza e precisão encanta-nos com seu conto. Surpreende-nos.

Ler pode ser como tomar um gole de cachaça, principalmente se a leitura provoca fogos e ardências. Roscotos. Mistérios de Okifô desembrulhados na escrita de Bruno Azevêdo (MA). Especulações numéricas e denominações eróticas.

Em tempos de assinaturas digitais, lápis e canetas serão jogados ao fundo das gavetas. Delírios das traças que sonham em escrever ao invés de roer, roer. Viajo nas caligrafias desenhadas, arredondadas “da novela fio condutor”. Artes de quem escreve-cozinha-costura coisas apimentadas. Caligrafias de “amor e balas”. Baladas e Blues. Mistérios de Salvador. Zíper na capa de livro? Capa que abre e fecha. Capa que se desfaz inteirinha. Oh! Então, caligrafo com minha Grip Finepen verde: “Haja fôlego” para acompanhar o processo de criação de Laura Castro.

Ligo-me aos Maxakali graças a Isael Maxakali e Charles Bicalho (MG). Passo os dedos no desenho das letras ancestrais. Impossível apenas olhar! Surpreendo-me cega, iletrada. Tento soletrar “hãmnõy há mõg”. Meus lábios não sabem o que dizer. Preciso do corpo inteiro para decifrar essas inscrições. Por fim, decifro apenas meu desejo imenso de deitar no terreiro da aldeia para ouvir longas histórias. Talvez, dia desses, deseje tatuar na pele palavras da língua Maxakali. Tento soletrar “hãmnõy há mõg”.

Por fim, compreendo que ler é surpresa. Como se toma uma lapada de Mangueira. Garrafa há dias atravessada no congelador. Garrafa coberta de cristais de gelo. Mistério. O álcool não congela, não vira picolé.

O ritual é simples. Garrafa fora do congelador e já ouvimos discretos estalidos do gelo derretendo. Fome de tudo. Sede de tudo. Líquido no copo. Um brinde à amizade. Ao amor. Copo erguido. Líquido sorvido de um único gole. Lapada. Estalos de dedos. Surpreender-se com o fogo gelado descendo goela abaixo. Surpreender-se com um sonoro puta que pariu! Face em fogo. Cerveja gelada para lavar a alma que o corpo não é de ferro.

Ler a Acrobata é surpreender-se. É sentir arrepios “no osso profundo” quando a cachaça desce queimando tudo.

Maria do Rosário da Silva – historiadora com sentimento literário. Pesquisa e faz invenções com o tempo dos homens. É doutoranda em História do Brasil pela UFPE.

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